Queda nos roubos de veículos derruba preço de seguros no Rio

O aposentado Raimundo Covatti, de 63 anos, pagava religiosamente, desde 2016, o seguro do seu Gol 1.0, ano 2015. Era a proteção que tinha contra os roubos, comuns em Campinho, bairro da Zona Oeste onde mora. Este ano, em março, teve de abrir mão da cobertura. Ele vinha segurando as contas na ponta do lápis, ano após ano, mas foi atropelado pelo aumento da apólice — inflacionada pelo alto número de roubo de veículos, índice que vinha acelerando no Estado do Rio de Janeiro desde 2016. Raimundo é um entre milhares de motoristas afetados pelo aumento da criminalidade. O cenário, no entanto, vem desenhando uma projeção de retomada de velocidade do setor e redução dos preços. Um levantamento exclusivo, realizado pela Bidu Corretora a pedido do EXTRA, aponta que o preço médio dos seguros no Rio caiu 17,5% de agosto do ano passado em comparação ao mesmo mês deste ano, o último com números já disponíveis. O carro de Raimundo, por exemplo, foi de R$ 4.619 em 2018 para R$ 3.485 este ano, uma queda de 24,6% ou R$ 1.134.

A redução no valor do seguro segue a dos índices de violência. Números do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio mostram que, de janeiro a setembro, os casos despencaram 23%, na comparação entre 2018 e 2019: foram 30.625 registros este ano, contra 39.969 no mesmo período do ano passado.

— Estou rodando menos para não correr tantos riscos enquanto estou sem seguro. Tenho orçado mensalmente os valores e minha expectativa é que, em novembro, consiga contratar a cobertura. Vou tirar um peso das costas e aliviar meu bolso — disse Covatti.

O Rio se tornou protagonista quando o assunto é roubo de veículos. Apesar de ter 8,2% da população do país, segundo o IBGE, e contar com 12,5% da frota de veículos — percentual baseado em dados de setembro Detran-RJ e numa projeção nacional feita pelo Sindipeças — o estado representa 23% desse tipo de crime. E o número em 2018 foi ainda maior no mesmo período, com 28.488 ocorrências, de acordo com dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Na capital, queda no preço foi de 47% em agosto

Dados obtidos pelo EXTRA apontam que, no último recorte mensal disponível (de julho para agosto) — orçado entre as maiores corretoras do país através da Bidu — a cidade do Rio marcou queda de 47,4% no preço do seguro para homens. A cotação, feita com a média dos dez veículos mais vendidos do mês de julho deste ano, reduziu em R$ 1.884 o preço final pago pelos motoristas.
Diretor de Marketing e Performance da Bidu, Luiz Carlos Pires, afirma que a sinistralidade no mês de setembro melhorou — o que pode reduzir ainda mais os preços. Ele explica que o deslocamento diário também impacta no valor do seguro:

— É considerado pelas seguradoras o trajeto que o motorista faz entre a casa e o trabalho, o que costuma ser feito com mais frequência. Os riscos dentro dessa rota, como, por exemplo, índice de acidentes, roubos e furtos são analisados. Se uma das regiões tiver altos índices de assaltos, implicará em preços mais altos ao motorista para se cobrir esse risco.

Seguro renasce em áreas que antes estavam restritas

A explosão no número de veículos roubados, em 2017, levou seguradoras a recusarem clientes em algumas áreas do estado ou a aumentarem consideravelmente o valor do contrato, a ponto de o proprietário do automóvel desistir de fechar negócio. Uma grande companhia chegou a abandonar o mercado fluminense por causa dos altos números de sinistros. Agora, com a queda nos roubos, a empresa voltou a atuar no estado.

Coordenador da Escola de Negócios e Seguros , José Varanda explica que, com a redução dos índices de roubos de veículos, a tendência é que as seguradoras voltem a atuar em todo o estado.

— As companhias trabalham com estatísticas para calcular o valor do seguro. Em determinadas áreas, o preço ficava tão exorbitante que, em termos de custo, não compensava nem para a seguradora e nem para o consumidor. Por isso, em algum momento acabamos tendo restrições em certas áreas. Mas estamos vendo isso melhorar bastante. O resultado está se refletindo não só no custo das tarifas, mas no fim das restrições — diz.

O corretor de seguros Weysber Antunes Barbosa, de 64 anos, que atua há três décadas em Itaboraí, comemora o renascimento do seguro na região, que teve a segunda maior queda no estado nos roubos de veículos.

— Este ano, já percebemos uma redução nas taxas dos seguros e uma maior aceitação de seguradoras que não atendiam a região. Para se ter ideia, duas seguradoras que estavam com atuação suspensa em Itaboraí no ano passado agora voltaram a fechar contratos — conta o corretor.

Clonagem e revenda ilegal de peças

As quadrilhas de ladrões de veículos que atuam no Rio têm como principais objetivos revender as peças ou utilizar os carros para clonagem. A revenda é feita, em geral, de três formas: para ferros-velhos, em “kits” fechados para recuperar carros comprados em leilões e, ainda, em sites na internet. Já a clonagem consiste na modificação da numeração do chassi e de outros sinais identificadores do veículo, além da placa — todos os dados copiados de um carro que está legal.

De acordo com o delegado titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), Alessandro Petralanda, há ainda uma prática de roubar carros de luxo no Rio para levar para outros países, como Bolívia e Paraguai, onde são trocados por drogas. Petralanda explica que todas as quadrilhas de roubos de carros do Rio são ligadas ao tráfico de drogas. Os traficantes dão suporte “logístico”, fornecendo armas e permitindo que os veículos roubados sejam levados para as favelas logo após serem subtraídos. Em troca, ficam com um percentual do lucro obtido com o crime. O dinheiro é revertido para a compra de armas e drogas para a quadrilha.

— No Rio, diferentemente de outros estados, não há quadrilhas autônomas. São todas ligadas ao tráfico de drogas. Com o passar dos anos, os traficantes passaram a diversificar os seus lucros, investindo em outras atividades, como os roubos de veículos. Reflexo disso foi a criação da figura de gerente do roubo de carros, algo semelhante ao gerente do tráfico — exemplifica Petralanda.

Dados obtidos pelo EXTRA via Lei de Acesso à Informação demonstram que quase metade (48%) dos roubos de veículos no estado acontecem à noite, entre 18h e meia-noite. Com relação ao dia da semana, o número de ocorrências aumenta com a aproximação do fim de semana, com pico na sexta-feira. De acordo com Petralanda, são o horário e o dia da semana em que há mais pessoas circulando pelas ruas da cidade.

‘O estado do Rio estava abandonado’

Entrevista com Henrique Brandão, Presidente do Sindicato dos Corretores do Rio (Sincor-RJ)

Qual é o impacto da queda de roubos na área de seguros?

O Estado do Rio estava abandonado. Nós estávamos sem segurança. Uma das áreas em que o governo mais investiu e reforçou foi a segurança pública. Os resultados na área de seguros são evidentes. Os preços vão ser reduzidos de uma forma generalizada, e estamos começando a ter aceitação dos riscos em locais que não eram aceitos antes.

Mesmo em locais antes considerados restritos a oferta de seguros será normalizada?

Existem áreas que efetivamente as seguradoras não queriam e hoje querem, porque a criminalidade diminuiu, sobretudo por causa da queda nos índices de roubo de veículos. Mesmo nas áreas conflagradas, em que as companhias não fariam contrato de jeito nenhum, nem cobrando um preço absurdo, agora já estamos vendo a aceitação dos riscos, e a entrada nessas áreas está se dando com uma redução substancial nos valores.

‘Chegava a influenciar 70% no preço’

Entrevista com Ronaldo Vilela, Diretor-executivo do Sindicato das Seguradoras RJ/ES

Como o índice de roubo influencia no cálculo do seguro?

Uma cobertura básica de seguro de automóveis cobre roubo, colisão e incêndio. Esses três componentes influenciam, sendo o roubo o mais determinante do preço. O componente roubo tem uma influência direta no cálculo, é o preponderante. O Rio passou por um índice muito elevado de roubo de veículos e esse componente chegava a influenciar 70% no cálculo do seguro e, agora, com a diminuição dos índices, beira os 50% do valor final do prêmio.

A redução dos roubos leva à redução do preço do seguro?

O preço do seguro leva em conta o local onde o veículo vai circular. Se a área representa altos índices de roubo, o preço reflete. Se o número de roubos oscila, o preço do seguro irá traduzir essa variação. As seguradores operam num mercado de competição, então querem oferecer o menor preço possível. Com a redução do roubo, há a redução do preço do seguro.

Fonte:
Carolina Heringer, Matheus Maciel e Pedro Zuazo
Extra
https://extra.globo.com/casos-de-policia/reducao-no-numero-de-roubos-no-rio-ja-tem-reflexo-no-preco-dos-seguros-de-veiculos-24050078.html